

A Cultura Inglesa está entrando no mercado de educação básica com a abertura de seis colégios bilíngues em São Paulo. A iniciativa marca uma mudança importante para a instituição de ensino de 92 anos, que passa a operar um negócio regulado pelas secretarias de Educação. A nova operação está demandando investimento de R$ 90 milhões distribuídos à readequação dos imóveis, que são todos próprios, e formação de professores.
Esse passo da Cultura ocorre no momento em que o mercado de idiomas passa por transformações, com uma concorrência acirrada com os colégios oferecendo o aprendizado do inglês na grade curricular do como disciplina complementar. Além disso, há a chegada de vários grupos educacionais internacionais, em especial os britânicos, que desembarcaram no Brasil comprando escolas locais.
O mercado de escolas de educação básica movimentou, no ano passado, R$ 112 bilhões, sendo que os colégios premium representam 20% desse valor, de acordo com dados da consultoria Hoper. O faturamento dos colégios representam 55% a mais que o ensino superior privado, que concentra cerca de 85% dos universitários. Já na educação básica, é o inverso, apenas 20% dos alunos estudam em colégios particulares — o que é visto por fundos e grupos internacionais como oportunidade de expansão.
Para entrar no mercado da educação básica, a Cultura Inglesa trouxe profissionais e escolares tradicionais. A diretoria executiva desse novo braço de negócio foi assumida por André Felipe Mendonça, que, por 14 anos, esteve à frente da escola Elite, do grupo Salta. A área pedagógica está a cargo da Deisy Gava, que, nos últimos quatro anos, era coordenadora na Beacon School, recém-adquirida pelo grupo britânico Affinitas.
“Já tínhamos todas as prerrogativas para ter uma operação de educação básica. Somos referência em escolas de inglês, temos sistemas de ensino e uma faculdade para formação bilíngue. Acreditamos que essa será uma importante avenida de crescimento”, disse Wilson Diniz, presidente da Cultura Inglesa. Ele assumiu o posto em 2024, após dez anos na Cruzeiro do Sul, companhia de ensino superior de capital aberto.
A nova rede de colégios terá mensalidade na casa dos R$ 5 mil, chegando a R$ 6,6 mil para período integral, na capital paulista — região do país com maior custo de educação básica privada. Essa faixa de preço abarca o público premium e que, em geral, busca colégios com marcas reconhecidas.
As duas primeiras unidades serão inauguradas em 2027 (com matrículas abertas a partir de agosto) nos bairros da Vila Mariana e Mooca. “Escolhemos essas duas regiões com base em estudos de mercado e nos imóveis próprios da Cultura Inglesa, que são grandes, ótimos para escolas”, disse Diniz. No total, a Cultura Inglesa é dona de 14 propriedades que fazem parte do patrimônio imobiliário da instituição e que sem fins lucrativos.
O bairro da Vila Mariana é conhecido por ser uma das regiões com maior volume de colégios particulares no país. Já na região da Mooca, bairro vizinho do Tatuapé, onde há um público de alta renda, há uma carência de escolas. A Red House International School, da família Lam e fundo Gama, tem uma unidade no Tatuapé.
Os outros quatro colégios da Cultura Inglesa ficarão na capital ou cidades do interior de São Paulo, cujas praças exatas não foram divulgadas, com abertura prevista até 2030. As primeiras projeções começam com educação infantil (três a cinco anos) e ensino fundamental 1 (seis a dez). Em 2028, começa o fundamental 2 e, na sequência, será implementado o ensino médio em parceria com uma instituição britânica.
A rede de colégios foi batizada de Cultura Inglesa Bilingual School. “É uma escola nova, mas o grande diferencial é que temos por trás uma marca reconhecida. Essa credibilidade ajuda muito”, disse Mendonça. Não à toa, a instituição adotou seu tradicional brasão, com o leão, mas com marca dos colégios, mas com uma identidade focada no azul para não haver confusão com as escolas de inglês do grupo, conhecidas pelo vermelho.
Diniz, da Cultura Inglesa: “Temos todas as prerrogativas para ter colégios”
Os colégios da Cultura Inglesa não serão focados em vestibular. No segmento em que a instituição vai atuar, o de escolas com mensalidade na casa dos R$ 5 mil, muitas delas são voltadas à aprovação na faculdade. “Visitamos várias escolas britânicas para o desenvolvimento do nosso projeto pedagógico, que é voltado mais à formação de cidadãos. É um programa que contempla artes, esportes e bem-estar, ou seja, um ambiente em que os alunos se sintam seguros e acolhidos”, disse Mendonça. As escolas hoje enfrentam dificuldades para lidar com questões socioemocionais das crianças.
A criação do negócio de educação básica ocorre na sequência do desenvolvimento de outras frentes, nos últimos anos, como o sistema de ensino de inglês que é adquirido por colégios a fim de concorrer com outras empresas de “apostilas” que também passaram a ofertar conteúdo de inglês. Hoje, o material didático da Cultura é adotado por 100 escolas privadas. Um pouco antes, a instituição iniciou uma expansão via franquias. “Continuamos a expandir essas frentes. A educação básica é mais uma operação, não uma substituição”, disse o presidente da Cultura Inglesa.
O primeiro passo da reorganização da Cultura foi dado em 2021, quando a instituição comprou a operação do Rio de Janeiro, que pertencia ao fundo Gera, em que um dos principais investidores era o empresário Jorge Paulo Lemann.
Hoje, a Cultura Inglesa tem 55 mil alunos em suas escolas, 25 mil usando os sistemas de ensino e 700 estudantes na Faculdade Cultura Inglesa, especializada em formação de docentes e educação bilíngue. Essa operação também cresce diante da carência de professores habilitados para ministrar aulas e atender o mercado de colégios bilíngues. O docente precisa ter formação em licenciatura e certificação de proficiência em inglês.